Perdi, hoje cedo, um pedaço!
Tarvez me apergunte sem embaraço,
Ou faça firula inhante de dizê,
Afiná cumpade, perdeste um pedaço de quê?
Pois inda onte eu me achava completim completim,
Vois micê, ô quarquê um, que oiasse pra mim,
Ia vê um homi, de dois braço, duas perna, com dois oi e orêa,
Sem ninhuma disformidade, quais novo e com sangue correno nas vêa.
Mas aí tú me diz, ave cumpade, indoideceu foi?
Tú num ta aí interim, com braço, perna orêa e oi?
Que diabo te deu homi?
Inté parece que cruzô cum lubisomi!
Inhante fosse cumpade zé,
Pruquê se fosse lobisomi, eu inda dava no pé,
Ô se fosse doidice, vois miceis me amarravava e dava um banho fri,
Mas o pedaço que farta, cumpade, tiraro de dentro daqui.
Dinovo tú me apergunta, cumpade, te tiraro um figo, um rim ô os intistino?
Valei-me homi, diz logo que eu já me tô mijano de medo feito minino,
Tão robano inté os orgo do povo da roça?
Ai deus, inda hoje me mando dessa choça!
Não se apoquente cumpade que tú num intendeu,
Não me abriro e nem tiraro nada deu,
O que tiraro daqui de dentro num sangra não!
Tiraro daqui de dentro, foi o amor do coração...